Mbappé, Özil e as contradições do futebol que integra e exclui imigrantes

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Quando Emmanuel Macron beijou a testa de Kyllian Mbappé, às vistas do Estádio Lujniki e de bilhões de pessoas em todo o mundo, houve algo de simbólico. O gesto de carinho do presidente francês para com o jovem camisa 10, filho de um camaronês e de uma argelina, coroava a conquista da Copa do Mundo por uma seleção que tinha quinze descendentes de imigrantes (a maioria vindos de países africanos), mais dois nascidos em outras nações, entre os vinte e três jogadores de seu elenco. Para os mais otimistas, a cena foi uma mensagem de esperança para todos aqueles que vivem foram de seus países e sofrem com a crescente xenofobia no mundo todo.

Mais simbólico ainda é Macron ter vencido a ultradireitista Marine Le Pen, que usou o discurso xenófobo e anti-imigrantes como uma de suas plataformas nas eleições presidenciais em 2016. O resultado representou um alívio para os defensores do mundo livre e para todos que temem a onda anti-liberal e intolerante presente não só na Europa, mas em outros lugares do mundo, como os Estados Unidos de Donald Trump.

Se o título francês destacou, de alguma forma, o poder de integração do futebol, a campanha da Alemanha no mesmo torneio resultou no contrário. A então campeã mundial passou vergonha ao ser eliminada ainda na primeira fase, com direito a derrota para a Coreia do Sul na partida derradeira. Houve muitas críticas aos jogadores pelo desempenho decepcionante, mas Mesut Özil, descendente de turcos, sentiu algo além das avaliações futebolísticas. “Eu sou alemão quando ganhamos, mas um imigrante quando perdemos”, escreveu o jogador do Arsenal na carta em que anunciou sua aposentadoria da seleção aos 29 anos.

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“As últimas semanas me deram tempo para refletir, e tmpo para pensar sobre os eventos dos últimos meses. Consequentemente, quero compartilhar meus pensamentos sobre o que aconteceu”, escreveu Özil ao anunciar sua aposentadoria da seleção alemã (créditos: reprodução/Twitter)

Özil ganhou destaque internacional na Copa do Mundo de 2010, quando surgiu como um dos nomes de uma geração promissora, junto de Thomas Müller, Toni Kroos e o igualmente descendente de turcos Sami Khedira. O bom desempenho o levou ao Real Madrid, de onde posteriormente seguiu ao Arsenal, e a um lugar de destaque na Nationalelf, sendo o dono da camisa 10 na campanha do título mundial em 2014, no Brasil.

Para quem via de fora, a ascendência e a religião de Özil (o islamismo) não parecia ser um problema. Isso mudou em maio de 2018, na véspera da convocação para o torneio na Rússia, quando, junto de İlkay Gündoğan e Cenk Tosun, posou para uma foto com Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia. Reinhard Grindel, presidente da DFB, a Federação Alemã de Futebol, e alvo de críticas contundentes de Özil por seu passado como parlamentar anti-imigração, negou as acusações do jogador. Karl-Heinz Rummenigge, ex-atacante do Bayern de Munique e da seleção alemã, chamou a acusação de Özil de “conto de fadas”. Já Uli Hoeness, presidente do clube bávaro, pegou mais pesado: “Seu jogo é um lixo há anos. E agora ele esconde a si mesmo e seu desempenho de merda por trás desta foto”.

A Turquia, a Alemanha e o passado que liga as duas nações

A foto de Özil, Gündoğan e Tossun com Erdogan foi tirada num momento delicado nas relações entre Alemanha e Turquia. Antes parceiros, os dois países têm vivido momentos de tensão desde 2016, quando o presidente turco escapou de uma tentativa de golpe militar. Erdogan tomou então uma série de medidas repressivas à oposição, prendendo 145 mil pessoas, segundo o jornal The Independent. Em abril de 2017, com apoio da maioria muçulmana conservadora, venceu um referendo por mudanças na constituição que deram ainda mais poder ao presidente. Em junho deste ano, foi reeleito. Apesar do apoio popular, muitos o consideram um ditador.

As atitudes de Erdogan refletem na sociedade alemã por conta da ligação entre os dois países. A Turquia, por fazer fronteira com a Síria, é importante no controle do fluxo de regugiados da Síria, e também na luta geopolítica contra o terrorismo. Entretanto, o passado guarda mais detalhes dessa relação. Nos anos 1960, a Alemanha ainda se reconstruía dos estragos da Segunda Guerra Mundial e precisava de mão-de-obra barata. A solução foi recorrer a estrangeiros, e a maioria foi composta por turcos.

O problema é que o plano, chamado Gastarbeiter (“convidados”, em alemão), era ter esses trabalhadores em terras germânicas por um período limitado de tempo. Muitos deles não quiseram voltar a seus países de origem e se instalaram na nação que ajudaram a reconstruir, gerando tensões com os alemães e alimentando o sentimento de xenofobia. Hoje, a Alemanha tem 10 milhões de imigrantes, sendo cerca de 4 milhões deles turcos.

A partir da década de 1990, os imigrantes que estavam no país há mais de oito anos puderam fixar residência por lá, enquanto seus descendentes puderam, a partir dos 18 anos, receber a nacionalidade alemã, além daquela da família de seus parentes. Por conta disso, os jogadores puderam escolher qual seleção defender. Özil, Gündoğan e Emre Can escolheram jogar pela Alemanha. Outros tantos, como Nuri Sahin, Ilhan Mansiz, Cenk Tosun e os irmãos Halil e Hamit Altintop, optaram pela Turquia. O futebol também entrou nessa relação ao dar destaque a jogadores como Mehmet Scholl, campeoníssimo pelo Bayern de Munique, e com os clubes que recepcionavam estrangeiros, como contado por esta matéria da Trivela.

Atualmente, a Alemanha ainda vive as contradições da integração com imigrantes e refugiados. Ainda mais porque a chanceler Angela Merkel tem adotado, e defendido, uma política de ajuda aos refugiados da guerra civil na Síria. Em 2016, ao abrir as fronteiras a essa multidão, fez da frase “Nós vamos conseguir” seu slogan. Porém, há quem credite à chegada de refugiados o aumento da criminalidade no país – por mais que também haja quem minimize essa relação. Em alguns locais, houve confrontos entre imigrantes e extremistas de direita. E o AfD (Alternativa para a Alemanha), de discurso islamofóbico e anti-imigração, alcançou, no ano passado, a assustadora marca de ser o primeiro partido de extrema-direita a conseguir lugares no parlamento depois de 1945. Com 12,9% dos votos, conquistou 90 das 631 cadeiras do Bundestag.

A Alemanha de 2018 luta para manter a coesão social ao mesmo tempo em que se torna, mais do que nunca, uma terra de múltiplas identidades.

Mas, afinal, o futebol ajuda ou atrapalha a vida dos imigrantes?

Vinte anos antes de Mbappé, Pogba,Umtiti e Cia. chegarem ao topo do futebol mundial, a França conquistou sua primeira Copa com uma equipe também marcada pela diversidade étnica, cultural e geográfica. Lilian Thuram, Thierry Henry e Bernard Diomède, Christian Karembeu (nascido na Nova Macedônia), Patrick Vieira (de Dakar, Senegal) e, principalmente, Zinédine Yazid Zidane, filho de pais argelinos, fizeram os franceses torcerem por cidadãos com origens em outros países. Aquela seleção foi batizada “black-blanc-beur” – “negra-branca-árabe”.

Apesar do sucesso, havia quem se opusesse a toda essa diversidade. Jean-Marie Le Pen criticou, em 1996, quando era presidente do partido Frente Nacional, os jogadores que não cantavam o hino francês, a Marselhesa. “Acho artificial convocar jogadores de outros países e batizar de ‘seleção francesa’”, disse. Também havia muita gente concordando com a visão do político: quatro anos depois de Zidane trazer o troféu da Copa do Mundo para seu país, Le Pen chegou ao segundo turno das eleições presidenciais. Na disputa contra Jacques Chirac, porém, perdeu de goleada: apenas 17,94% dos votos, contra 82,06% do adversário. Ou seja, a conquista histórica teve um efeito apenas passageiro na sociedade francesa.

O legado de Jean-Marie hoje é mantido (e ampliado) por sua filha Marine. Mesmo a derrota para Emmanuel Macron deu sinais do quanto seu discurso extremista encontra eco entre os eleitores. No segundo turno, ela obteve 10.644.118 votos, quase o dobro dos 5.525.032 conquistados por seu pai quinze anos antes.

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Marine Le Pen segue os passos do pai Jean-Marie e também ficou em segundo lugar numa eleição presidencial na França (créditos: reprodução/Instagram)

Repercutindo a aposentadoria de Mesut Özil da seleção alemã, a revista britânica The Economist investigou se procede a crença de alguns otimistas a respeito do poder de integração do futebol. A matéria lembra de casos similares de preconceito contra descendentes de imigrantes, como o de Romelu Lukaku, astro da Bélgica semifinalista na Rússia. “Quando as coisas iam bem, eu lia matérias no jornal e eles me chamavam Romelu Lukaku, o atacante belga. Quando as coisas não iam bem, eles me chamavam Romelu Lukaku, o atacante belga descendente de congoleses”, afirmou o jogador do Manchester United, numa conclusão parecida com aquela de Özil em sua carta.

A visão dos especialistas e acadêmicos consultados pela revista é um tanto pessimista. Dirk Halm, cientista social da Universidade de Duisburg-Essen, autor de uma pesquisa sobre a segregação entre alemães e turcos nos clubes amadores, acredita ser falsa a “suposição de que a participação em esportes por si mesma tenha um efeito integrativo”. Christos Kassimeris, também cientista social, da Universidade Europeia do Chipre, afirma que o futebol é um espelho da sociedade, e não uma força que a transforma.

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Vindo da periferia de Paris, Mbappé é um dos símbolos da multiétnica seleção francesa campeã do mundo (créditos: reprodução/Instagram)

Por outro lado, é possível argumentar que a contribuição do esporte, e do futebol em especial, apesar de não ser tão decisiva quanto muitos gostariam, não pode ser desprezada. O sucesso de certos esportistas acaba quebrando barreiras sociais, étnicas, culturais e religiosas que parecem intransponíveis à primeira vista. A torcida por um negro, um imigrante ou um muçulmano aproxima diferentes grupos a uma realidade diferente daquela em que estão acostumados.

Tão importante quanto isso é a representatividade: a identificação que um jovem de origem africana da periferia de Paris sente ao ver Mbappé, vindo do mesmo mundo, ser decisivo numa Copa do Mundo. “Em nossa equipe, há muitos jogadores que vieram de horizontes diferentes, mas temos o mesmo espírito”, resumiu Antoine Griezmann, companheiro de Mbappé no ataque francês campeão mundial. Griezmann que, aliás, é descendente de portugueses e alemães.

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