A atuação política de Eric Cantona, da voadora às críticas a Bolsonaro

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Eric Cantona está no honroso grupo de ídolos de um dos maiores clubes do mundo, o Manchester United, conquistou sete títulos de ligas nacionais na Europa e defendeu por oito anos a seleção da França. Entre aqueles que não acompanham futebol com muito afinco, entretanto, The King é mais conhecido por uma cena chocante: a voadora que acertou em um torcedor do Crystal Palace depois de ser expulso em partida do Campeonato Inglês, em 25 de janeiro de 1995.

A imagem daquela atitude intempestiva rapidamente entrou para a história do futebol. A partida em si já era importante: caso vencesse o duelo na casa do rival, no estádio Selhurst Park, o Manchester United chegaria ao topo da tabela e se manteria firme rumo ao terceiro título inglês consecutivo. O primeiro tempo, porém, foi morno e sem grandes emoções. Cantona, grande estrela de sua equipe, era caçado em campo pelo zagueiro Richard Shaw e reclamava com o árbitro a falta de um cartão amarelo a seu marcador. Tão genial quanto genioso, o camisa 7 perdeu a paciência e aos 16 minutos da segunda etapa descontou sua raiva com uma falta que lhe rendeu a expulsão.

Conformado, Cantona abaixou a gola da camisa (a gola alta era sua marca em campo) e se dirigiu à linha lateral. Foi quando o jovem Matthew Simmons, de apenas 20 anos, desceu de seu lugar na arquibancada para ficar mais perto do campo e provocar o astro rival. Nunca passou pela sua cabeça que o francês viria correndo em sua direção e lhe aplicaria a famosa voadora, definida pela imprensa internacional como chute de kung-fu. Ainda foi preciso separar os dois para que a agressão não continuasse.

Mas o que teria de político aquele ato impensado e violento? Segundo Cantona, o torcedor do Crystal Palace disse o seguinte: “Fuck off back to France, you French bastard”, algo como “Foda-se de volta para a França, seu francês bastardo”. Na versão de Simmons, sua fala foi bem mais amistosa: “Vai pra fora, Cantona, é um banho mais cedo pra você”. Até hoje, não se sabe o que realmente foi dito. Cathy Churchman, uma torcedora que presenciou a cena de perto, contou que o barulho no estádio era tão alto que era impossível ouvir as palavras da vítima da agressão. No caso de a verdade estar com Cantona, sua reação teria sido motivada não apenas por uma ofensa pessoal, mas por um ato de xenofobia – o que coloca a política no meio da história.

Além disso, descobriu-se posteriormente que Matthew Simmons havia participado de manifestações do British National Party e do National Front, partidos britânicos de extrema-direita e orientação fascista. O National Front, inclusive, esteve envolvido em outro incidente no mesmo ano de 1995. Hooligans do Combat 18, grupo parceiro do partido, foram responsáveis por um tumulto no estádio Lansdowne Road durante amistoso entre Irlanda e Inglaterra. O árbitro teve de encerrar a partida e, ao fim, vinte pessoas ficaram feridas e quarenta foram presas pela confusão.

Por conta disso, a voadora até hoje é vista não apenas como o ato intempestivo de um jogador de pavio curto, mas como uma verdadeira atitude política. Alguns se lembram do evento como o dia em que o craque chutou um racista e o próprio Cantona a considera a melhor recordação da carreira. Já o Manchester United respondeu rapidamente ao caso e afastou seu astro pelo resto da temporada, pena aumentada pela FA, a Federação Inglesa de Futebol, até o final de setembro de 1995. Mesmo assim, o jogador não deixou de ser uma figura controversa.

As raízes multiculturais do Rei de Manchester

A suposta ofensa xenofóbica de Matthews Simmons pode ter deixado Cantona enfurecido não apenas pelas suas raízes francesas, mas também pela forma como o país recebeu a sua família. O próprio craque contou essa história em belo artigo no site The Players’ Tribune. A Espanha vivia em 1939 o fim da Guerra Civil que opôs, de um lado, a Frente Popular, formada por republicanos liberais, anarquistas e socialistas, e, do outro, os Nacionalistas, composto por monarquistas e falangistas (membros do movimento fascistas Falange Espanhola). No primeiro grupo lutou o avô materno de Eric, combatente pela independência da Catalunha.

Com o apoio do exército e também de tropas enviadas pela Alemanha Nazista e pela Itália Fascista, os Nacionalistas venceram a Guerra Civil e formalizaram a ditadura fascista de Francisco Franco, que durou de 1º de outubro de 1936 até a data de sua morte, em 20 de novembro de 1975. O avô de Cantona se viu obrigado, então, a sair do país. Junto de sua namorada, ele foi viver em um campo de refugiados em Argelès-sur-Mer, na costa sul da França. Anos depois, já com sua filha, eles foram viver em Marselha. O lado paterno da família também era composto por imigrantes. Seu bisavô veio da Sardenha, uma ilha parte da Itália insular, fugindo da pobreza, em 1911. Já o avô lutou na Segunda Guerra Mundial.

Com esse passado, não é de se estranhar as opiniões fortes do craque a respeito da política e da imigração. “Esta história está em meu sangue. Ela me forma como ser humano”, escreveu ele ao Players’ Tribune. Até por isso, ao se aposentar do futebol em 1997, com apenas 30 anos e decepcionado por não ser convocado para a Copa do Mundo da França, Cantona passou a trabalhar como ator, mas manteve suas atividades políticas. Em 2014, dirigiu o documentário “Foot et immigration, 100 ans d’histoire commune” (“Futebol e imigração, 100 anos de história comum”), que pode ser assistido neste link – infelizmente, sem legendas para o português.

“O futebol deveria ser para o povo. Esta não tem de ser uma ideia utópica. Não há razão por que os principais atores do jogo não podem se juntar e apoiar o aspecto social do futebol”

Como defensor da importância da imigração, Cantona é crítico dos políticos e partidos de extrema-direita que têm ganhado força ao redor do mundo usando a xenofobia como plataforma. “Me parece que tudo isso está ligado à crise econômica. Me parece que, se não tivesse havido a crise de 1929, Hitler nunca chegaria ao poder”, disse ele em entrevista ao site Euronews na época da divulgação do documentário. “Infelizmente, durante as crises, as pessoas caem no desespero, elas não sabem mais no que se segurar e isso faz nascer o extremismo. O que é perigoso é tirar vantagem do desespero de algumas pessoas para espalhar ideias malucas”.

Se, durante a carreira no futebol, Cantona nunca evitou as polêmicas, não seria como ex-jogador que fugiria delas. Ao convocar a seleção francesa para a Eurocopa de 2016, Didier Dechamps deixou Hatem Ben Arfa na lista de espera e nem citou o nome de Karim Benzema, ao que o Rei de Manchester atribuiu a questões raciais. “Benzema e Ben Arfa são ótimos, mas é o Deschamps quem tem um nome francês ‘de verdade’. São dois dos melhores jogadores da França, mas não irão jogar a Eurocopa. E, com certeza, Benzema e Ben Arfa têm suas raízes no norte da África. Portanto, o debate está aberto”, disparou em entrevista ao The Guardian. Sobrou até para Manuel Valls, então primeiro-ministro francês, chamado de hipócrita por recomendar ao treinador que não convocasse o atacante do Real Madrid.

De rei a presidente?

Depois de conquistar a idolatria dos torcedores do United e construir uma carreira como ator, Cantona surpreendeu novamente ao anunciar, em 2012, que se concorreria à presidência da França. “Sou um cidadão atento aos nossos tempos, às oportunidades que esta época oferece aos mais jovens – muito limitadas -, às injustiças que isso provoca”, disse ele em comunicado enviado ao Libération. Segundo a publicação, o ex-jogador estaria tentando junto a prefeitos da França as 500 assinaturas necessárias para oficializar a candidatura.

No entanto, o próprio jornal explicou em editorial que a campanha era mais um drible de King Eric, um movimento para chamar a atenção das pessoas e levá-las a outro assunto. Na carta aos prefeitos, ele pedia as assinaturas para evidenciar o problema da falta de moradia para os mais pobres. “Eu escolhi o problema da moradia porque me parece essencial e diz respeito a 10 milhões de pessoas”, afirmou. Sem sua presença, a eleição presidencial daquele ano acabou com a vitória do socialista François Hollande diante de Nicolas Sarkozy, do partido UMP (União por um Movimento Popular), por uma pequena diferença de votos.

“Deixem-me fazer uma simples pergunta àqueles que comandam o futebol mundial… Sobre o que é o futebol, se não sobre liberdade? Sobre o que é a vida, se não sobre liberdade? Qual é o sentido da vida?”

Na disputa seguinte, cinco anos depois, foi a vez de Emmanuel Macron, do En Marche!, disputar o cargo com a candidata de extrema-direita Marine Le Pen, da Frente Popular. Com suas origens estrangeiras e sua defesa dos direitos dos imigrantes, não foi surpresa quando Cantona anunciou seu voto no candidato centrista – a crítica à imigração foi uma das principais plataformas da campanha de Le Pen.

Neymar, Sócrates e Bolsonaro

No dia 15 de junho de 2018, Eric Cantona partiu para uma nova empreitada e criou seu perfil no Instagram. Junto de algumas estranhas fotos conceituais e imagens da família, ele passou também a postar vídeos em que fala, no estilo que o consagrou, sobre diversos temas, principalmente o futebol e seus astros. Uma de suas primeiras “vítimas” foi Neymar: no dia seguinte à estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, o craque posou com macarrão na cabeça e segurando uma foto do camisa 10 do PSG, para não deixar dúvidas do deboche em relação a seu corte de cabelo. No dia seguinte, em vídeo, seguiu com a ironia: “Na Rússia, Neymar decidiu prestar homenagem a uma grande nação do futebol que não se classificou para a Copa. Seu cabelo tigela de espaguete aquecerá o coração dos nossos amigos italianos”.

A implicância seguiu ao longo do torneio. Com bom humor, Cantona apareceu em vídeo mostrando uma mala amarela: “Esta é minha nova mala. Eu a chamo de Neymar. Por causa da cor, mas principalmente por causa disso: você mal encosta e ela gira, e gira por horas”, zombou, girando o objeto na mesa, para depois seguir sua fala. “A propósito, Neymar, você é um grande jogador e um grande ator. Mas tome cuidado com os erros contínuos. Se você foi acertado no ombro direito, não pode chorar de dor segurando sua bochecha esquerda”, completou.


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Neymar’s tribute by the commissioner of football ⚽️ #neymar#brasil#psg#italia#worldcup#worldcuprussia#squadraazzurra#eurosport#thecommissioneroffootball

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Outra provocação a Neymar, feita dias antes, veio de forma mais indireta. Uma foto de Sócrates, com a mão no peito, durante a Copa do Mundo de 1986, era acompanhada da legenda: “Sem mais enganações. Sem mais lágrimas de crocodilo. Sem mais narcisismo. Vamos amar o Brasil como costumávamos amar”. O Doutor voltaria a aparecer no perfil um dia depois do primeiro turno das eleições no Brasil, desta vez com a camisa do Corinthians e o punho direito erguido na sua tradicional comemoração. “Democracia Corintiana”, escreveu Cantona na legenda, junto das hashtags #socrates e #brazilianelections. Já dava para adivinhar qual era o recado que The King queria passar com a publicação, mas, para deixar ainda mais claro, dias depois ele postou um vídeo na praia criticando a CBF. “Quando vejo a Seleção Brasileira aceitar jogar um amistoso na Arábia Saudita – por muito dinheiro, tenho certeza -, consigo entender por que milhões de brasileiros estão dispostos a votar em Bolsonaro”, cutucou. Na legenda, desta vez, aparecia apenas “BR #elenao”, usada nas redes sociais para mostrar oposição ao candidato do PSL. Nos mais de 4390 comentários, brasileiros se dividiram entre o apoio e as críticas à mensagem. Um bom exemplo do impacto e dos sentimentos que Cantona causa nas situações em que se envolve.


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Corinthians democracy #socrates #brazilianelections

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