De refugiado a prefeito: como o pai de Kompany fez história na política da Bélgica

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Vincent Kompany costuma usar seu perfil no Instagram para postar imagens de sua atuação como jogador do Manchester City e da seleção da Bélgica. Entretanto, no dia 14 de outubro, o zagueiro apareceu em vídeo ao lado de seu irmão François para passar uma mensagem diferente. “História! Estamos muito orgulhosos de você, pai. Veio do Congo, como refugiado, em 1975. Agora ganhou a confiança da sua comunidade local se tornando o primeiro negro eleito prefeito na Bélgica!”, dizia a legenda.

A conquista de Pierre Kompany não repercutiu tanto quanto os títulos de seu filho na Inglaterra, mas tem um simbolismo enorme, que remonta à relação conturbada, e mesmo trágica, entre a Bélgica e a República Democrática do Congo. A eleição para prefeito de Ganshoren, pequena cidade próxima da capital Bruxelas, além de ser a primeira de um negro para o cargo no país europeu, como o capitão dos citizens lembrou, pode ser lida como uma pequena revanche histórica, um gol de honra numa partida totalmente desigual.

Para entender esta metáfora, é preciso mergulhar na história colonial do país que se localiza no centro do continente africano. Ela começa com a exploração do rio Congo pelo jornalista e explorador britânico Henry Morton Stanley, entre 1874 e 1877. Seu relato da região chamou a atenção do rei belga Leopoldo II, que formou um comitê para estudá-la e criar laços comerciais por lá. Stanley ficou responsável por abrir negociações com os comandantes locais e, em 1884, a Association Internationale du Congo assinou tratados com 450 entidades africanas para delimitar um estado independente.

A criação do Estado Livre do Congo era parte de um plano concretizado na Conferência de Berlim, na qual a colonização da África foi dividida entre países europeus: nas mãos de Leopoldo ficou o território da nação recém-criada. Alegando motivos humanitários, como o fim da escravidão e a modernização local, o monarca tomou o país para si, como uma terra particular. O objetivo, no entanto, era outro: construir uma estrutura de comando hegemônica para recolher os recursos naturais da região. Era preciso, segundo Stanley, construir uma ferrovia para explorar as enormes riquezas minerais, sem a qual o país não teria valor. Para cumprir prazos e tornar o empreendimento lucrativo, por sua vez, era necessário recorrer a rotinas de trabalho inviáveis por parte dos trabalhadores congoleses.

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O Rei Leopoldo II fez do Congo sua propriedade privada para explorar as riquezas naturais dos país. (WikiMedia Commons)

Se o provérbio português diz que a necessidade faz o ladrão, ela também faz o tirano. O governo de Leopoldo apelou para formas extremas de coação, como sequestrar familiares dos operários e mantê-los presos até o cumprimento de certas cotas de trabalho. Para impedir rebeliões, a Force Publique, espécie de exército privado do rei, queimava as vilas e assassinava as famílias dos rebeldes. Outra prática comum era a amputação das mãos das pessoas, outra forma de mostrar poder e garantir o temor da população.

Até hoje existe se discute a extensão dos crimes cometidos pelo governo de Leopoldo e o quão responsável ele foi por todas as atrocidades. Em 1999, o livro “O fantasma do Rei Leopoldo”, do americano Adam Hochschild, agitou o debate. Segundo ele, além das retaliações já conhecidas, os oficiais do monarca teriam sido responsáveis por nada menos que 10 milhões de mortes, numa espécie de Holocausto desconhecido da população mundial. Há quem o coloque no mesmo patamar de grandes facínoras do século XX, como Hitler e Stalin. Obviamente, autoridades belgas não gostaram das acusações e contestaram sua validade. O que ninguém nega é a influência negativa do reinado de Leopoldo no Congo, que deu origem a um sentimento de ódio contra o Ocidente e construiu as bases para a conflituosa política do país desde então.

Na época, foram também escritores quem denunciaram o que acontecia no Congo. O mais famoso foi o americano Mark Twain, autor da sátira política “O solilóquio do Rei Leopoldo”, uma ficção na qual o próprio belga se defende de acusações em um julgamento. Pressionado pela exposição dos crimes, o parlamento da Bélgica decidiu, em 1908, anexar o país europeu como sua colônia comprando-o junto ao rei.

O Congo Belga e o Zaire de Mobutu

Sob o comando da Bélgica, as maiores atrocidades cometidas pelo governo do Rei Leopoldo tiveram um fim. Entretanto, no aspecto político e social, as mudanças não foram tão significativas. Assim como antes, a população congolense era tratada com certo desprezo, sem a chance de participar das decisões sobre os rumos do país. Sem essa participação, não foram construídas bases e instituições para o desenvolvimento saudável da política do país. Logo, essa negligência iria se refletir nas disputas pelo poder local.

Ao longo dos anos, o desejo de independência foi crescendo no Congo, especialmente entre os évolués, como eram chamados os africanos mais próximos da cultura ocidental. O plano da metrópole, idealizado pelo professor A.A.J. van Bilsen, era conceder ao longo de trinta anos a emancipação de sua colônia. Em resposta, um grupo de évolués da etnia bakongo chamado Alliance des Bakongo (ABAKO) lançou um manifesto exigindo o imediato desligamento entre os dois países. Joseph Kasavubu foi o catalisador do sentimento nacionalista que crescia cada vez mais rápido no país. De outro lado, ganhou proeminência o Movimento Nacional Congolês (Mouvement National Congolais, ou MNC) sob o comando de Patrice Lumumba. Diferentemente do ABAKO, o MNC tinha uma visão pan-africana e lutava pela independência de todo o Congo, não apenas de seu grupo étnico.

A situação chegou a um ponto insustentável no dia 4 de janeiro de 1959, quando membros do ABAKO foram às ruas da capital Léopoldville (hoje Kinshasa) protestar e sofreram forte repressão da polícia. As dezenas de pessoas mortas, hoje consideradas heróis da independência congolesa, e a forte repercussão no país fizeram com que, quatro dias depois, a Bélgica formalmente reconhecesse o plano de emancipação de sua colônia, ainda que “sem procrastinação fatal, mas sem pressa fatal”. A decisão não acalmou os ânimos e, em janeiro de 1960, uma reunião do governo belga com os principais líderes nacionalistas definiu a descolonização e a transferência de poder.

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Patrice Lumumba, eleito primeiro-ministro na primeira eleição do Congo, foi morto em 1961 por separatistas. (créditos: WikiMedia Commons)

A esperança de dias melhores para o país, renomeado como República do Congo, durou pouco tempo. Ainda em meados de 1960, alguns eventos geraram a chamada “crise do Congo”, entre eles um motim no exército e o envio de tropas belgas para proteger a vida de cidadãos ligados à metrópole. No campo político, Lumumba, do MNC, venceu a eleição presidencial contra Kasavubu, líder do ABAKO. Nenhum dos dois partidos, porém, conseguiu criar uma coalizão para governar. A saída foi Kasavubu assumir o cargo de presidente e Lumumba, o de primeiro-ministro.

Ao mesmo tempo, a província de Katanga, com apoio belga e sob a liderança de Moise Tshombe, se declarou independente. Para tentar aplacar o movimento, o primeiro-ministro pediu ajuda das forças de segurança da ONU e, depois, apoio militar da União Soviética, colocando o Congo no meio da Guerra Fria. Mesmo assim, o país se dividiu em quatro partes: Katanga, Kasai, Província Oriental e Léopoldville. Vendo no momento de divisão uma chance de chegar ao poder, o militar Joseph Mobutu deu um golpe de Estado e anunciou, em setembro de 1960, que o exército assumiria o poder. Patrice Lumumba foi capturado e morto pelas forças de Tshombe dois meses depois.

A história seguiu turbulenta, com revoltas por secessão de regiões do país e o parlamento congolês colocando o civil Cyrille Adoula como novo presidente. Mesmo com o apoio de Tshombe, Adoula não conseguiu manter a popularidade e a estabilidade de seu regime. Kasavubu assumiu, então, mais uma vez a presidência, desta vez com o próprio Moise Tshombe como seu primeiro-ministro. Foi nesta situação que, em 24 de novembro de 1965, Mobutu deu um novo golpe e finalmente iniciou sua longa ditadura no Congo.

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Mobutu (segundo da esq. p/ dir.) encontra-se com o americano Richard Nixon (ao seu lado dir.) em Washington, 1973. Ditador comandou o Congo por 32 anos. (créditos: WikiMedia Commons)

O novo comandante, em sua mania de grandeza, mudou o próprio nome para Mobutu Sese Seko e depois o nome do país para Zaire. Ele reunia todas as piores características e excentricidades de um autocrata: culto à personalidade e a sua imagem (o chapéu com estampas estilo leopardo era sua marca principal), obsessão por riqueza, corrupção e grandes planos econômicos que não deram certo. Aliado aos Estados Unidos, que o ajudaram a chegar ao poder, comprou adversários políticos e usou a repressão para conseguir um feito: manter unida uma nação composta por 450 etnias diferentes e criar entre elas um sentimento nacionalista. Foi nesse contexto conturbado que o jovem Pierre Kompany, filho de um empresário do setor de eletrodomésticos, tentava construir sua vida.

O caminho inverso da colonização

Atacante, Kompany chegou a jogar futebol profissionalmente, tendo inclusive uma passagem pelo Mazembe – sim, aquele mesmo que eliminou o Internacional na semifinal do Mundial de Clubes de 2010 – mas não deixou de seguir os estudos no curso de engenharia da Universidade de Lovanium, atual Universidade de Kinshasa. Esse caminho, porém, foi interrompido por confrontos em 1969, que o obrigaram a se mudar para seguir estudando em Lumumbashi. Dois anos mais tarde, por conta de uma manifestação em memória dos mortos nessas revoltas, a universidade da cidade foi fechada e os manifestantes, presos. Entre eles estava Pierre.

A solução para mudar de vida foi seguir para a Bélgica, onde se tornou refugiado. No país que colonizara o Congo, o pai do zagueiro do Manchester City encontrou o abrigo que precisava: pode trabalhar como taxista para terminar a graduação, tornou-se professor no l’Institut des Arts et Métiers (Instituto de Artes e Ofícios) e, em 1982, conseguiu o título de cidadão belga. Com o passar do tempo, ele passou a participar da vida pública, envolvendo-se em atividades em Ganshoren. O gosto pela política o levou a se tornar vereador pela pequena cidade de apenas 25 mil habitantes, com mandato entre 2006 e 2012.

A carreira de Pierre seguiu uma evolução natural. Em 2012, ele se elegeu deputado pelo seu município e, dois anos mais tarde, deputado do Parlamento de Bruxelas pelo partido Centre Démocrate Humaniste (cdH), de orientação democrata-cristã. O próximo passo foi concorrer à prefeitura, cuja vitória se tornou notícia no mundo todo – poucos sabiam que o pai do famoso Vincent Kompany fazia história na política belga. Sua missão, segundo suas próprias palavras, é “combater todas as formas de injustiça”, aproveitando o poder de comoção do esporte. Uma dessas injustiças é o próprio racismo, denunciado em um vídeo gravado em setembro por Cécila Djunga, a única apresentadora de telejornal negra do país.

Enquanto o refugiado reescrevia sua história na Bélgica, com uma nova família e o envolvimento na vida pública, o Zaire seguiu sofrendo com os tradicionais problemas de sua política. Em 1997, Mobutu deixou a presidência depois da Primeira Guerra do Congo, uma série de confrontos contra a oposição liderada por Laurent-Désiré Kabila, e o país voltou a ter o nome anterior. Quatro anos mais tarde, o presidente Kabila foi assassinado em meio à Segunda Guerra do Congo, também chamada de Guerra Mundial Africana, que durou entre 1998 e 2003, envolveu mais oito países da região e é considerado o conflito com maior número de vítimas desde a Segunda Guerra Mundial. No ano passado, outra guerra, entre o governo de Kinshasa e rebeldes de diferentes grupos étnicos, obrigou 1,7 milhão de pessoas a fugirem de suas casas.

Hoje governado por Joseph Kabila, filho de Laurent, o país tem eleições presidenciais marcadas para o dia 23 de dezembro de 2018 e tenta encontrar o caminho da paz enquanto ostenta números terríveis, como 63,9% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza e uma expectativa de vida de apenas 59 anos, segundo dados de 2012 do Banco Mundial. Quem sabe a chance de chegar a dias melhores fosse maior se, em meio às sangrentas disputas de poder por políticos autoritários e grupos rebeldes, houvesse um líder como Pierre Kompany, que foi obrigado a se mudar para o antigo colonizador de seu país para lá contribuir com sua atuação.

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Pierre Kompany acompanha atuação do filho Vincent em partida da Copa do Mundo da Rússia. Seleção belga ficou na terceira colocação. (créditos: reprodução/site oficial)
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