O ativismo de Megan Rapinoe, da luta por salários iguais à contenda com Trump

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Megan Rapinoe é um personagem raro no futebol. Inconfundível em campo, com seu cabelo curto loiro ou, mais recentemente, rosa, ela comandou o quarto título de Copa do Mundo dos Estados Unidos brilhando dentro e fora de campo. Já é quase uma rotina para ela: destruir equipes adversárias com seus gols em um momento (foram seis na edição que se encerrou neste domingo, um deles na final, que lhe rendeu a artilharia do torneio) e disparar, com a mesma precisão e contundência, palavras em direção a quem, em sua visão, se coloca como opositor dos direitos das minorias e da justiça social.

Os exemplos são fáceis de encontrar. A atacante não perdoou a seleção da casa e, diante de toda a torcida contra si, marcou duas vezes para eliminar a França nas quartas de final. E, dias antes, fez do presidente dos Estados Unidos seu alvo. Perguntada por um repórter da revista Eight by Eight se estava ansiosa para visitar a Casa Branca caso vencesse a Copa, ela deu uma resposta seca e direta: “Eu não vou pra porra da Casa Branca”. E completou: “nós não seremos convidadas. Eu duvido”. Começou aí uma contenda que transbordou o universo dos esportes para chegar à política e envolver um país inteiro.

Sempre atento às oportunidades de se envolver em alguma discussão para mobilizar suas bases, Donald Trump respondeu a declaração pelo Twitter, como de costume. “Eu sou um grande fã da seleção americana e do futebol feminino, mas Megan deve VENCER primeiro antes de FALAR. Nós não convidamos Megan ou o time ainda, mas agora eu estou convidando o TIME, vença ou perca”, disse. “Megan nunca deveria desrespeitar nosso país, a Casa Branca, ou nossa bandeira, especialmente desde que tanto tem sido feito por ela e pela equipe. Tenha orgulho da bandeira que você veste. Os Estados Unidos vão muito bem”.

A discussão mexeu com a sociedade americana, principalmente nas redes sociais, gerando mobilização e apoio a ambos desafetos. Por um lado, houve quem elogiasse a atitude da atacante, vista como uma forma de protesto contra o atual governo estadunidense. A jornalista Christina Cauterucci, por exemplo, escreveu artigo no site Slate chamando Rapinoe de “novo tipo de herói americano” e comparando-a ao lendário e politizado Muhammad Ali. Do outro lado vieram críticas por sua falta de patriotismo e pelo uso do esporte e da seleção americana (composta por outras jogadoras que podem não concordar com a opinião de Rapinoe) como veículo para causas pessoais.

No fim, Pinoe, como é chamada pelas pessoas próximas, saiu vencedora de todos os jeitos possíveis. As colegas de time mostraram, sim, apoio à declaração. A lateral e amiga Ali Krieger, por exemplo, disse que “ficar em silêncio pode favorecer o opressor e eu não quero que ela (Rapinoe) sinta que está passando por isso sozinha, porque muitas de nós têm o mesmo sentimento”. A própria treinadora da seleção estadunidense, que poderia não mostrar entusiasmo por um desvio de foco no meio da competição, elogiou sua comandada. “Nós precisamos de pessoas assim no esporte, honesta, que chama as coisas pelo que elas são”, afirmou Jill Ellis.

A discussão a respeito da visita não foi a primeira vez em que a jogadora se estranhou com o presidente dos Estados Unidos. A ficha corrida de declarações e atitudes politizadas de Megan Rapinoe vai longe, apesar de ter ficado muito mais intensa nos anos recentes. “Eu acho que ela realmente começou a encontrar sua voz quando começou a encontrar sua sexualidade”, deduziu Rachael, sua irmã gêmea. “Talvez parte do motivo de ela ter sido quieta enquanto crescia era porque se sentia um pouco diferente. Ela não se sentia confortável em sua pele. Mas uma vez que percebeu quem ela era, e por que se sentia do jeito que se sentia … foi quando encontrou força em sua voz “. A partir daí, Rapinoe nunca mais ficou em silêncio.

Do armário para os holofotes

Ao contrário do que possa parecer, Megan não vem de uma família progressista e urbana de uma grande cidade americana. Mais nova entre as seis filhas de um casal cristão, ela nasceu em Redding e foi criada em Palo Cedro, no conservador norte da Califórnia. Para se ter uma ideia, em seu distrito, Donald Trump bateu Hillary Clinton nas eleições de 2016 por 65% a 28% dos votos. Mesmo assim, a criação lhe deu a base para futuramente desenvolver seu ativismo. “O que meus pais me ensinaram foi o modo genuíno de tratar as pessoas. Eles são muito bondosos, muito amáveis e não julgam as pessoas”, contou a jogadora.

Em um artigo para o Players’s Tribune, Rapinoe contou como, a partir do sexto ano da escola, passou a perceber a diferença em relação aos colegas. Como ela mesma escreveu, era uma tomboy, ou uma Maria-João, menina de trejeitos mais masculinos. Gostava de praticar esportes, se envolvia em algumas brigas, não conseguia ter grande desenvoltura social, contando para isso com o apoio da irmã gêmea. Foi no futebol que encontrou sua personalidade e seu grande potencial. Começou a jogar na Universidade de Portland e estreou como profissional em 2009, pelo Chicago Red Stars (seriam as estrelas vermelhas um prelúdio de sua futura atuação política?), na WPS (Women’s Professional Soccer), principal divisão do futebol dos Estados Unidos na época.

Depois de passagens curtas por outros times, incluindo na Austrália, a ponta-esquerda passou a conquistar seus principais títulos em clubes quando se transferiu ao Lyon, em janeiro de 2013. Pelos Gones, venceu o Campeonato Francês, a Copa da França e foi vice da Liga dos Campeões na temporada 2012-2013. No ano seguinte, voltou a seu país para atuar pelo Reigns FC, de Seattle, onde levantou duas vezes a taça da atual principal liga norte-americana, a National Women’s Soccer League (NWSL), e onde segue até hoje.

Na seleção dos EUA, a trajetória de Rapinoe é ainda mais brilhante. Em 2011, chegou à final da Copa do Mundo, disputada na Alemanha, e foi substituída seis minutos antes do fim da prorrogação. Com o placar mantido em 1 a 1, ela viu do banco a derrota de sua equipe por 3 a 1 nos pênaltis. A derrota não ficou por muito tempo marcada em sua carreira, pois, nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, marcou três gols, inclusive um na épica vitória sobre o Canadá na prorrogação nas semifinais, e levou a medalha de ouro com uma revanche sobre a seleção japonesa. Naquela partida, foi Carli Lloyd quem anotou os gols da vitória por 2 a 1.

Rapinoe colabora com a Common Goal, organização criada por Juan Mata para receber doações de 1% do salário de jogadores de futebol e doá-la à caridade. “Eu realmente amo o conceito. É, antes de tudo, muito simples. Você pode fazer algo impactante”, afirmou em entrevista ao The Guardian

Entre o vice-campeonato mundial e a volta por cima nas Olimpíadas, Pinoe assumiu sua homossexualidade publicamente. Com a carreira estabilizada e com a auto-estima renovada na vida pessoal, passou a ser fundamental para a seleção feminina dos Estados Unidos. Na Copa do Mundo de 2015, novamente como titular, colaborou para a campanha vitoriosa em mais uma final contra as japonesas. Desta vez, não houve equilíbrio e as americanas venceram por 5 a 2, com direito a quatro gols de vantagem com apenas 16 minutos de jogo.

Foi no ano seguinte que Megan Rapinoe se envolveu em um de seus episódios mais controversos. Em apoio ao jogador de futebol americano Colin Kaepernick no protesto contra a violência e a repressão policial a pessoas negras, ela imitou seu gesto de ajoelhar-se durante a execução do hino nacional. Isso aconteceu em 15 de setembro de 2016 e, pode-se dizer, a partir de então sua vida mudou. Ela se tornou, como definiu a si mesma em entrevista ao Yahoo Sports, um “protesto ambulante”.

É difícil para nós, brasileiros, dimensionar a importância e a controvérsia desse ato. Se um jogador de futebol tiver uma atitude semelhante, muito provavelmente não gerará a mesma discussão e as mesmas reações apaixonadas, talvez porque no Brasil os símbolos nacionais não sejam tratados de maneira sagrada como são nos States. “Subitamente, eu comecei a receber e-mails odiosos e vergonhosos no endereço da nossa empresa [o Rapinoe FC, clube que fundou com a irmã gêmea]”. Seus pais sentiram uma mudança de tratamento por parte dos conhecidos em sua cidade. “Eu apenas disse: não tinha outro veículo [para o protesto]? É como eu me senti. Para Megan, não havia outro modo. Ela não se arrepende. Mas têm havido muitas reações”, contou Denise, sua mãe.

Dias depois, Rapinoe explicou seu protesto em novo artigo no Players’s Tribune. “Eu escolhi me ajoelhar porque, no tempo em que escrevi este artigo, muitos americanos foram perdidos para a violência sem sentido. Eu escolhi me ajoelhar porque a menos de duas milhas do meu hotel em Columbus, Ohio, na noite da partida da nossa seleção contra a Tailândia, um garoto de 13 anos de idade chamado Tyre King foi morto por um policial. Eu escolhi ajoelhar porque eu simplesmente não posso aceitar o tipo de opressão que este país permite contra seu próprio povo. Eu escolhi ajoelhar porque, nas palavras de Emma Lazarus, ‘até que todos sejamos livres, nenhum de nós será’”, escreveu.

Ainda no artigo, ela respondeu às críticas de falta de patriotismo e desrespeito aos símbolos de seu país. “Eu sou a mesma Megan Rapinoe que vocês conhecem há anos. Eu sou a mesma mulher que vestiu as estrelas e as listas em seu peito, orgulhosa e radiante. Eu sou uma das mulheres que vocês chamaram de heroína americana, e não apenas uma vez”, afirmou. Durante a Copa na França, este ano, ela reforçou a mensagem: “eu sou particularmente, unicamente e muito profundamente americana. Se queremos falar sobre os ideais que defendemos, o hino, a bandeira e sobre o que fomos fundados, eu penso que sou extremamente americana”. Mesmo assim, em um ambiente político bastante polarizado (e isso nós brasileiros entendemos bem), a atitude de 2016 ainda rende críticas.

Para controlar o episódio, a Federação de Futebol dos Estados Unidos (USSF) criou uma regra que obriga os jogadores e jogadoras a se manter de pé “respeitosamente” durante a execução do hino estadunidense. Por meio de sua assessoria de imprensa, Rapinoe disse que respeitaria a norma. No entanto, ela também afirmou acreditar “que devemos sempre valorizar o uso da nossa voz e nossa plataforma para lutar por todo tipo de igualdade”. Desde então, a ponta-esquerda mantém o protesto ao ficar em pé, mas de boca fechada, sempre que o “Star-Spangled Banner” é tocado antes dos jogos.

Uma atacante on fire dentro e fora das quatro linhas

Apesar de toda reação, tanto positiva quanto negativa, que marcou sua vida, a atitude tomada naquela partida contra a Tailândia ajudou a fazer de Rapinoe a figura que ela é hoje: uma das principais jogadoras de futebol do mundo e uma ativista incessante. Sua maior preocupação é dar visibilidade às causa da comunidade LGBTI e da igualdade de gênero. Em 2018, posou junto de sua namorada Sue Bird para o primeiro ensaio fotográfico de um casal do mesmo sexo na Sports Illustrated. Já em março de 2019, junto das estrelas Alex Morgan, Carli Lloyd e outras vinte e cinco jogadoras da seleção feminina americana, entrou com um processo contra a USSF por discriminação de gênero.

Segundo as atletas, a federação as discrimina de diversas maneiras, incluindo a quantidade de jogos, os locais onde disputam as partidas, o tratamento médico e o treinamento que recebem e, é claro, o quanto recebem. Geralmente, quando mulheres reivindicam tratamento igualitário, há quem argumente que os esportes masculinos geram mais visibilidade e, consequentemente, mais dinheiro. Porém, nem esse argumento pode ser usado nesse caso específico, pois a seleção feminina dos Estados Unidos dá mais lucros do que a masculina. Isso sem falar na diferença de resultados em campo: enquanto os homens têm em seu currículo apenas seis títulos da Copa Ouro e um vice na Copa das Confederações de 2009, as mulheres já conquistaram quatro vezes a Copa do Mundo e levaram a medalha de ouro em outras quatro vezes em Olimpíadas.

“É como se os homens tivessem comandado o mundo por todo esse tempo. Talvez eles devam tirar uns cem anos de descanso. E nós [as mulheres] podemos tomá-lo por uns anos e ver aonde chegamos”

E, durante a Copa do Mundo na França, Rapinoe pegou fogo – ou, como dizem lá fora, esteve on fire – sempre que teve os holofotes sobre si. Com seis partidas disputadas, ficou de fora apenas da semifinal contra a Inglaterra, o que gerou boatos de que o motivo teria sido sua declaração sobre a visita à Casa Branca, quando, na verdade, foi poupada por conta de uma lesão. Ao todo, anotou seis gols, incluindo dois diante de Espanha, nas oitavas de final, e França, nas quartas, e mais um na decisão. Ao comemorar um dos tentos contra as donas da casa, comemorou gritando “go, gays”. Depois da partida, completou: “você não pode vencer um campeonato sem gays no seu time – isso nunca aconteceu antes”.

Depois de dizer que não visitaria Trump, ao ser questionada sobre um possível arrependimento, ela reforçou a fala: “Eu mantenho os comentários sobre não ir à Casa Branca. Com exceção do palavrão. Minha mãe ficaria muito chateada por isso”. Na véspera da final, ela criticou até mesmo a promessa do presidente da Fifa, Gianni Infantino, de duplicar a premiação do Mundial. “Ainda não é justo. Deveriam dobrar e dobrar e quadruplicar da próxima vez. Isso que quero dizer sobre sermos respeitadas, sobre a FIFA não tratar igual”, disparou. Na mesma entrevista coletiva, ela ainda reclamou do fato de a final da Copa feminina acontecer no mesmo dia das decisões da Copa América e da Copa Ouro: “Vocês não se sentem desrespeitados com isso? É uma terrível ideia ter tudo no mesmo dia. Pera aí, é Copa do Mundo. Cancelem tudo”.

Megan Rapinoe apostou alto no torneio mais importante de sua carreira. Falou o que queria, comprou briga com o presidente de seu país, conquistou o título e levou os prêmios de artilheira e melhor jogadora da competição. Provou que, ao contrário do que pensam algumas pessoas, o esporte e a política se misturam, sim. E, no seu caso, podem beneficiar um ao outro. “Eu estou motivada pelas pessoas como eu, que estão lutando pelas mesmas coisas. Eu ganho mais energia por isso do que por provar que alguém está errado. Isso drena você mesmo. Mas, para mim, ser gay e fabulosa, durante o mês do Orgulho na Copa do Mundo, é legal”.

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