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Da punição aos clubes ao investimento em diversidade: as propostas de Marcelo Carvalho, do Observatório Racial do Futebol

Se hoje debatemos o racismo no futebol com mais frequência, muito se deve ao trabalho do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Essa afirmação, por mais que seja verdadeira, não ilude Marcelo Medeiros Carvalho, fundador e diretor do projeto: segundo ele, seria pretensão demais se orgulhar disso. Porém, quem acompanha o esporte na imprensa já deve ter visto Marcelo ou escutado o que ele tem a dizer. 

Formado em administração e técnico em telecomunicações por 15 anos, o gaúcho de Porto Alegre teve a ideia em 2014. “Aconteceram casos de racismo no começo daquele ano, com Márcio Chagas, Tinga, Arouca. Fui pesquisar os desdobramentos desses casos e não encontrei um lugar que falasse sobre o racismo no futebol brasileiro. Percebi que era um bom trabalho para ser feito”, relatou.

Marcelo, que tinha começado a fazer cursos de gestão do esporte, criou um perfil nas redes sociais, depois um site e, em seguida, o Observatório. Ele se juntou a uma amiga, Débora Silveira, para fazer levantamentos dos casos de racismo no futebol brasileira e monitorar seus desdobramentos. Desde 2014, a organização publica relatórios anuais com informações sobre esses casos: quando, onde e como aconteceram, quais os envolvidos e quais as consequências.

Mais do que isso, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol produz artigos, participa de programas de televisão, realiza campanhas e promove ações junto a clubes e atores do futebol. Uma das ações mais famosas aconteceu em 2019, quando Marcão e Roger Machado, treinadores de Fluminense e Bahia, respectivamente, e os dois únicos negros a ocuparem esse cargo na Série A, vestiram uma camisa do projeto. Desde então, o trabalho se desenvolveu e ganhou corpo – mas ainda precisa de ajuda financeira para se expandir e furar bolhas. Esse é um dos grandes sonhos de Marcelo, que, em entrevista de quase uma hora para o Futebocracia, falou sobre os planos para o futuro e as medidas que considera necessárias para combater o racismo no futebol brasileiro.

O Observatório já tem oito anos e tem um papel muito importante na discussão sobre o racismo no futebol. Qual conquista desse trabalho te deixa mais orgulhoso?

A conquista que eu acho mais legal é o crescimento do debate sobre racismo no futebol. Perceber que hoje não chegamos onde gostaríamos, como sociedade, mas que debatemos mais o tema nos espaços jornalísticos e nos clubes. Tu vê referências de vários espaços falando que o trabalho do Observatório mudou esse cenário. A maior conquista é isso, tem muita gente que fala que o Observatório mudou a maneira que se discute futebol no Brasil. Não enxergo dessa forma, seria muita pretensão minha, mas ouvir isso é gratificante. Perceber, por exemplo, o aumento de coletivos de torcedores, seja de mulheres, de LGBTQIAP+, de negros, principalmente a partir de 2016.

E o que te decepciona? O que você gostaria de ter conquistado e ainda não conquistou?

Eu queria ter mais espaço de fato. Sou uma pessoa que, por gostar de marketing, acho que no Brasil deveríamos ter uma grande campanha visual de combate ao racismo. Sou muito fã do que a UEFA faz na Liga dos Campeões, do que a Fifa faz na Copa do Mundo e do que acontece na Liga Inglesa. Vemos nesses lugares uma mensagem contra o racismo: está no patch das camisetas, nas placas de publicidade, nas falas dos capitães. São diversas ações que acontecem o tempo inteiro. Não temos nada parecido no Brasil. O que temos é, em determinado momento, determinado dia, ou tensionamento, vemos um posicionamento de alguma entidade, mas não temos algo perene. Se perguntarmos para as pessoas se conhecem alguma mensagem institucional contra o racismo, por parte da CBF, de alguma instituição, não temos. Isso frustra não pelo lado do Observatório, mas percebemos que, apesar do quanto lutamos como sociedade, o futebol ainda não valoriza o que nós fazemos.

Somos o país com maior população negra fora do continente africano, 56% da população é negra. Não tivemos força para fazer com que essas instituições se sensibilizassem com essa luta.

Quais são os próximos passos? Qual é a grande ambição que você tem em relação ao Observatório?

A grande ambição do Observatório é se tornar um instituto, uma organização que produz conhecimento e forma talentos. Temos diversas áreas em que poderíamos ter jovens trabalhando: jornalistas, advogados, designers. O maior sonho é capacitar jovens para fazer essas funções que o Observatório exige de pesquisa, documentação e elaboração de conteúdo.

A gente faz algumas ações, temos camisetas, produtos, várias coisas que acabam indo para a mídia, mas falta visibilidade. E para chegar a um maior contingente da população, precisamos de apoio financeiro. É difícil romper essa bolha. Embora tenhamos milhares de seguidores, falemos na TV, é para uma bolha.

Em relação ao futebol, a maior expectativa é que, de fato, marcas que patrocinam o futebol entendam a necessidade de investir no Observatório. É fazer com que as marcas que lá fora se posicionam também se posicionem no Brasil. Há marcas ligadas ao esporte que, fora do Brasil, patrocinam ativistas e trabalhos. Por que no Brasil nenhuma delas é atuante dessa maneira?

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Total de casos de racismo no futebol brasileiro registrados pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol entre 2014 e 2020. (crédito: reprodução/Relatório 2020)

Como é a relação do Observatório com os diversos atores do futebol, como clubes, federações, CBF e jogadores?

É um trabalho de formiguinha, estamos o tempo inteiro falando e produzindo coisas para que olhem para a gente, para enxerguem o que estamos fazendo. Mas é um trabalho muito difícil porque, em relação aos clubes de futebol, são entidades que não acreditam que o problema existe, ou não acreditam que o problema é deles. Dizem que o racismo no futebol é um reflexo da sociedade e que não têm nada a ver com isso. Mas, a gente começa a ver uma movimentação, alguns clubes mais interessados em trabalhar, em se posicionar, em fazer a coisa certa; marcas que começam a pressionar; quem está gerenciando os campeonatos percebendo que tem alguma coisa errada.

Agora a mensagem que levamos aos clubes é que estamos à disposição, porém queremos uma contrapartida financeira para continuar existindo. É uma construção, o tempo inteiro tentando plantar uma semente.

Temos alguns avanços interessantes. Em 2015, se olharmos para os clubes de futebol, eles mal se posicionavam sobre racismo. Quando acontecia um caso, muitos deles não falavam a respeito. Hoje, clubes se posicionam em algumas datas – 20 de novembro, 13 de maio, 21 de março. São datas específicas, quase todos se posicionam, alguns fazem algumas ações, mesmo aquelas que parecem ser só marketing são mudanças de posicionamento. Daqui a 20 anos, quando olharmos para trás, veremos que fizemos parte de um movimento que começou naquele momento.

Poderia falar um pouco mais da parceria com o Fluminense?

Fechamos no último final de semana. Estabelecemos uma série de ações para serem implantadas ao longo do tempo. Em um primeiro momento, [a ideia] era comunicar a parceria, comunicar à sociedade que Observatório e Fluminense estão unidos para combater o racismo. Assim, outros clubes vão ver essa manifestação e vão querer participar. Agora é entrar na sala e de fato pensar no que vamos fazer e construir. Não é a primeira parceria com clube com contrato assinado, o primeiro foi o Santos. A diferença desses dois casos para os outros é que fomos à mesa de negociação para assinar contrato e estabelecer prazos e regras para evoluir.

Ao que tudo indica, haverá recorde de casos de racismo identificados pelo ORF em 2022 (59 até o fim de julho). Tendemos a pensar que, com o passar do tempo, a sociedade evolui e as manifestações de preconceito diminuem. Por que isso está acontecendo?

Isso não é uma derrota. Em partes, é uma vitória, pois estamos tendo uma maior conscientização. Essas denúncias, antes, não viriam a público; muitas vezes, sabemos de casos que acontecem dentro do campo e dos estádios que não vieram a conhecimento geral. É uma quebra de silenciamento. Temos jogadores que denunciam cada vez mais o racismo que recebem no campo ou de torcedores. Se pegarmos o trabalho do Observatório em 2015 ou 2016, tínhamos muita informação de casos, mas também um medo muito grande de retaliação em caso de denúncia. Estamos conseguindo quebrar esse silenciamento, o que faz com que o número de denúncias aumente.

Por outro lado, é uma derrota, porque, neste momento, no Brasil e no mundo, nós temos governantes com um discurso de ódio muito forte, que estão autorizando outras pessoas a expressarem esse preconceito. Não podemos negar que, de fato, parece que as pessoas preconceituosas estão cada vez mais abertamente cometendo atos homofóbicos, machistas e racistas.

Você pode apontar algum exemplo de trabalho ou ação feito por um país ou federação no combate ao racismo? Algo que possamos dizer que é um modelo a ser seguido.

Acho que o modelo a ser seguido é o da Premier League. Não que ele tenha resultados positivos, porque na final da Eurocopa tivemos um grande número de insultos direcionados aos jogadores que erraram os pênaltis. Toda a campanha parece não ter tido efeito, mas teve, porque logo em seguida o sindicato dos atletas, as associações de jogadores, as federações, a própria Liga Inglesa se manifestaram e conseguiram fazer uma série de ações para tentar combater esse discurso de ódio. A Liga entrou em contato pelas redes sociais e as pressionou para banir quem cometer esses atos, os clubes mostraram que era possível identificar essas pessoas. Não vamos conseguir silenciar esses agressores, mas vamos conseguir mostrar a eles que existe uma relação e uma mão forte desse lado.

O Brasil é um país majoritariamente negro, mas os negros em postos de comando no futebol, como técnicos e dirigentes, são raros. Você defende alguma medida específica para mudar esse cenário?

O que eu defendo é fazer as empresas pensarem mais em ter diversidade em seus quadros, fazerem programas de capacitação de pessoas negras, estimular que elas ocupem esses espaços, dar oportunidades a elas. Mas eu não sou a favor, por exemplo, da implantação de cotas, porque implantamos cotas na sociedade brasileira, e elas foram muito positivas, mas não soubemos discutir isso. Há muita gente contra as cotas, mas que não sabem por que são contra, pois não sabem como elas funcionam. Se trouxer isso para o futebol, não haverá espaço para o debate. Por isso, eu prefiro que a gente estimule os clubes e as federações a fazer programas de diversidade. E que a gente assuma que não ter treinadores negros é um problema.

Os clubes precisam ser responsabilizados pelo que acontece nos estádios. Não podemos pensar que eles não podem ser punidos pelo ato que acontece dentro de um espaço sobre o qual ele é o responsável.

Já vi uma declaração sua sobre como a sensação de impunidade incentiva os casos de racismo no futebol, uma vez que poucos casos são levados à justiça e menos ainda são punidos. Para você, qual seria o caminho para mudar isso: maior rigor nas punições individuais ou punições desportivas aos clubes?

Eu defendo punição mais severa, como perda de pontos e possibilidades de exclusão do campeonato. Os clubes precisam ser responsabilizados pelo que acontece dentro das novas arenas, precisam ser punidos para que o torcedor entenda do que estamos falando. Não podemos pensar que os clubes não podem ser punidos pelo ato do torcedor, pois isso acontece dentro de um espaço sobre o qual ele é o responsável.

Mas eu não acho que esse é o único caminho. Precisamos pensar em educação e conscientização, trabalhar a consciência dos torcedores, para que saibam o que é racismo, como ele funciona na sociedade e como ele afeta a todos, não apenas as pessoas negras. Precisamos dizer para as pessoas que o que elas chamam de brincadeira, piada e opinião, gera isso que temos no Brasil hoje, que é o genocídio da população negra.

E o que você acha da atitude de deixar o campo? É uma forma efetiva de manifestação contra o racismo no futebol?

É um ato muito válido, sou totalmente a favor. A questão é: só os jogadores negros precisam sair de campo? E os outros jogadores? Precisamos entender por que os jogos continuam quando tem um caso de racismo. Eles continuam porque quem bota dinheiro no futebol quer ter o produto. E quem coloca dinheiro no futebol precisa entender que não pode ter o seu produto aliado a um ato racista. Claro que [deixar o campo] é muito válido, para que as empresas e os gestores do futebol entendam o tamanho do problema, e que eles entendam que não vão resolver isso fazendo de conta que nada está acontecendo. Mas é injusto demais cobrar posicionamento e atitude somente dos jogadores negros.

Tem chamado a atenção o grande número de casos de racismo por parte de torcedores de outros países sul-americanos durante jogos da Libertadores e da Sul-Americana. A Conmebol chegou a aumentar a pena para esses casos, em maio. Qual é a sua opinião sobre essa movimentação? É o bastante?

Foi importante, porque houve uma manifestação, houve uma mudança. Mas, de novo, só uma mudança punitiva, com o dinheiro indo para o caixa da Conmebol, não vai resolver nada. Ela precisa falar com os clubes, com as federações, fazer um seminário para discutir esse problema. E nós precisamos entender duas coisas, enquanto brasileiros. A primeira: por que tem tanto racismo lá fora contra os brasileiros? A segunda: entender que não basta dizer que os outros são racistas, pois há muito racismo aqui. Devemos cobrar que essas instituições discutam o tema, para entender por que os casos de racismo são tão comuns lá fora, entender qual momento esses países estão vivendo na questão racial. Só com a punição, o torcedor do clube que foi punido fica com mais raiva e muitas vezes não entende o que a gente está dizendo e não entende seu papel no combate ao racismo. Precisamos, de fato, usar esses valores das multas para promover ações, seminários, encontros, por exemplo.

Essas ofensas racistas relacionam os brasileiros a macacos, e vêm até mesmo de países com grande mistura étnica e pouca presença de brancos, como o Equador. De onde vem essa associação e por que o Brasil é alvo dessas ofensas por parte dos vizinhos?

Eles fazem isso com os brasileiros acontece porque temos uma população grande de negros. Nesses países, essa população é muito menor, eles se consideram países brancos. Neles, o debate maior é sobre xenofobia, pois a população negra é tão pequena ou tão fora do eixo central que eles não discutem o racismo como discutimos aqui. Mas onde estão esses negros? Por que eles não têm voz? Esse é o debate que precisamos fazer.

O que a Conmebol entende desses casos de racismo? Qual é o debate que ela vai fazer com esses países? Vamos fazer um paralelo: o Brasil foi multado seis vezes por conta de cânticos homofóbicos nos jogos das Eliminatórias para a Copa do Mundo. O Brasil se defendeu com o argumento de que aqui é cultural o xingamento homofóbico. É a mesma coisa que esses países fazem. O argentino vai dizer que não tem problemas com racismo, pois não tem racismo na Argentina, nos campeonatos deles. A gente precisa entender os contextos de cada país e reconhecer que, de fato, somos uma população negra, que é xingada lá fora. Não dá para fazer como o Epitácio Pessoa [presidente do Brasil entre entre 1919 e 1922], que orientou o treinador da seleção brasileira a não levar jogadores negros para que a equipe não fosse xingada ou associada a macacos. O Brasil pode, pela força política que tem, fazer com que esse debate aconteça.

Quem coloca dinheiro no futebol precisa entender que não pode ter o seu produto aliado a um ato racista. Deixar o campo é muito válido, para que as empresas e os gestores entendam o tamanho do problema.

Você pode dar um recado ou orientação para quem é apaixonado por futebol e quer vê-lo livre dessa chaga do racismo? O que essa pessoa pode fazer em relação a esse problema, de forma geral, e o que pode fazer para ajudar o Observatório?

O primeiro recado que podemos dar é: sejam torcedores antirracistas. O que é ser um torcedor antirracista? É aquele que olha para o problema racial de forma ampla, sem achar que o problema está no clube rival, que está nos argentinos, nos sul-americanos. Olhe para dentro do seu clube, perceba que nele o número de pessoas negras em cargos de gerência e de comando é muito pequeno. Todo torcedor deveria pressionar o seu clube para ter mais pessoas negras nesses espaços de comando, de decisão, de poder.

E fica o convite para as pessoas conhecerem o trabalho do Observatório, entenderem que vivemos em um país em que a maioria dos clubes tem mais de cem anos, então eles têm uma questão racial lá atrás, porque nenhum clube nasceu aceitando pessoas negras. Há clubes que tinham um ou outro negro, mas isso não quer dizer que aceitavam pessoas negras. Precisamos olhar para o passado, ver o que aconteceu e incentivar pessoas negras a estarem nesses espaços. Esse é o convite que o Observatório faz.

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