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França x Argélia: o jogo de futebol que não terminou e as feridas que não fecharam

Aos 20 minutos de jogo, Robert Pirès arrancou pela direita e cruzou rasteiro para o meio da área, onde Candela apareceu sem marcação, bateu forte e abriu o placar para a França diante da Argélia. Thierry Henry, que desfilava com a camisa do Arsenal pelos gramados da Inglaterra, descolou ótimo passe para Emmanuel Petit chutar cruzado, vencer o goleiro Mezair e ampliar o placar. Dez minutos depois, foi a vez do atacante aproveitar assistência de David Trezeguet e completar para o gol.

A vitória francesa já parecia definida àquela altura, mas ainda deu tempo de Djamel Belmadi descontar para a Argélia em falta cobrada com muita categoria, que passou sobre a barreira montada por Barthez. No começo da etapa final, Pirès pegou rebote de finalização de Trezeguet e deu números finais àquele amistoso no Stade de France, o mesmo onde os Bleus venceram a Seleção Brasileira na final da Copa de 1998.

A disputa era desigual: aquele esquadrão azul, campeão da Copa do Mundo, da Eurocopa e da Copa das Confederações, era claramente superior às Raposas do Deserto. Contudo, o placar não era exatamente o ponto mais importante naquela noite de 6 de outubro de 2001. O amistoso, chamado de “jogo da integração”, era a primeira partida da história entre França e Argélia. Para ser rigoroso, houve outro encontro, em 1975, mas sem os times principais, e a partida não entrou para a estatística de ambas as confederações.

Portanto, o Stade de France foi o palco da peleja que colocou frente a frente duas nações que, décadas antes, se atacavam nos campos de batalha. A ideia era fazer do futebol um instrumento de paz e diálogo, assim como o Santos de Pelé proporcionou momentos de alívio no Congo durante uma excursão pela África e um amistoso da Seleção Brasileira comoveu um caótico Haiti em 2004, como contamos aqui. Porém, não é sempre que essa estratégia dá certo.

A tensão começou logo na execução dos hinos nacionais. Enquanto o da Argélia foi respeitado, parte dos argelinos e seus descendentes presentes no estádio vaiaram a Marselhesa. Era o primeiro sinal de que a partida carregava lembranças e ressentimentos que não ficariam suspensos enquanto a bola rolava.

Quando o relógio apontava 30 minutos do segundo tempo e a seleção visitante avançava ao ataque, tentando diminuir a desvantagem, aconteceu a primeira invasão. Sofia Benlemmane, cidadã de ambos os países e jogadora de futebol, apareceu carregando a bandeira da Argélia, desfilou por breves segundos e passou a ser perseguida pela segurança. Mais gente acompanhou o gesto e o caos tomou conta. Diante da situação, o árbitro português Paulo Manuel Gomes Costa resolveu encerrar o jogo – o que causou revolta e mais torcedores, dezenas deles, adentrando as quatro linhas.

Lilian Thuram, que nasceu em Guadalupe, território ultramarino da França no Caribe, e hoje trabalha no combate ao racismo, foi um dos jogadores que mais se revoltou com a situação. “Eu fiquei furioso que uns poucos indivíduos estragaram um jogo tão importante. Era importante por causa da esperança de que nossos países pudessem se aproximar”, declarou. O ex-zagueiro e lateral-direito chegou a conversar com um dos invasores. “Eu o peguei pelo braço e perguntei: ‘você realmente sabe o que está fazendo?’. Ele me olhou com grandes olhos e pediu desculpas”.

A imprensa francesa adotou um tom pessimista a respeito do episódio e da possibilidade de integração entre as duas nações e seus povos. Semanas depois, Jean-Marie Le Pen, tradicional político de extrema direita e conhecido por suas propostas anti-imigração, escolheu o próprio Stade de France para anunciar sua candidatura à presidência – ele perderia o segundo turno para Jacques Chirac por grande diferença.

Independentemente da visão dos franceses e das possíveis consequências do episódio, a verdade é que os invasores representavam um ressentimento que estava presente nas relações entre franceses e argelinos. Para entender isso, vamos fazer uma viagem ao passado.

Uma guerra brutal

A Argélia é o maior país do continente africano em extensão, mas tem cerca de cinco vezes menos habitantes que a Nigéria, o mais populoso, principalmente porque 80% de seu território é ocupado pelo deserto do Saara. Ao longo de sua história, ficou sob domínio de diversos impérios, incluindo o romano e o otomano. Foi em 1830 que os franceses começaram a entrar em seu território, com um plano de ocupação que se consolidou em 1848.

A ocupação e a presença dos colonos europeus, privilegiados pela nova legislação e donos das terras mais férteis, não se deram sem distúrbios. Um dos principais aconteceu em 1945, quando uma escalada de violência foi reprimida violentamente pelo exército colonial, com direito a ataques a civis e bombardeio a vilarejos. Por outro lado, houve concessões por parte dos donos do poder após esse episódio: a cidadania francesa foi estendida a todos os argelinos e os muçulmanos foram liberados para ocupar cargos públicos – o que era proibido até então.

A luta pela independência argelina passou a ser liderada pela Frente de Libertação Nacional (FLN), um grupo de guerrilha urbana e rural que assumiu a autoria de diversos atentados na década de 1950. Tendo perdido há pouco tempo o controle sobre o Vietnã, a França não estava disposta a ceder. Sua colônia no norte da África era importante demais, por razões geopolíticas e econômicas, principalmente depois da descoberta de petróleo e gás natural em seu território. A tensão dificilmente se resolveria sem um conflito de grandes proporções.

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Barricadas montadas durante a Guerra da Independência da Argélia. Conflito ficou marcado pela brutalidade
(Christophe Marcheux/Wikimedia Commons)

A guerra de independência argelina durou de 1954 a 1962. A França, país que criou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, estabeleceu um sistema de perseguição e tortura a combatentes e ativistas argelinos. Estimativas do governo francês apontam entre 250 mil e 400 mil argelinos mortos na guerra, a maioria pertencente à FLN. Já a Argélia tem números diferentes: 1,5 milhão de habitantes teriam perdido a vida. Do outro lado, as baixas foram bem menores.

Segundo Eric Hobsbawm, em seu celebrado livro “Era dos Extremos”, a situação era agravada pela coexistência da população local com os colonos. A guerra ajudou a “institucionalizar a tortura nos exércitos, polícia e forças de segurança de países que se diziam civilizados”. Relatos dão conta do uso generalizado de espancamentos e choques elétricos em línguas e órgãos genitais.

Porém, a França também não passou incólume pelo conflito. Em meio a grande instabilidade interna, o governo insistia em manter sua colônia e despendia grandes esforços para isso. Em 1958, ele apelou para o general Charles De Gaulle, comandante das forças francesas na Segunda Guerra Mundial, que, para aceitar a missão, exigiu a criação de uma nova Constituição. Assim, a IV República da França dava lugar à V República.

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Combatentes da Frente de Libertação Nacional, principal força argelina na guerra contra a França, em 1958 (crédito: Zdravko Pečar/Wikimedia Commons)

Pressionado pela maioria da população francesa que era contra a ocupação, De Gaulle visitou a colônia. Ele constatou que não seria possível impedir a independência por muito tempo e permitiu a fundação provisória da República da Argélia. Parte dos colonos franceses se revoltou com a concessão e fundou a Organização do Exército Secreto, grupo de extrema direita que promoveu ataques terroristas e uma tentativa de golpe para mudar o curso da história.

A marcha dos acontecimentos, contudo, não pode ser alterada. Em março de 1962, o Acordo de Evian pôs fim à guerra. No dia 5 de julho daquele ano, foi fundada a República Democrática e Popular da Argélia e Ahmed Ben Bella, líder da FLN, chegou ao cargo de presidente.

Le Onze de l’indépendance

Entretanto, nem só de armas foi feita essa guerra: a bola foi outro instrumento usado pelos combatentes argelinos. Como o futebol era muito popular entre a população, Mohamed Boumezrag, ex-meia atacante de diversos clubes de ambos os países, juntou-se a líderes da Frente de Libertação Nacional para formar a equipe que ficou conhecida como “Le Onze de l’indépendance”, ou seleção da FLN.

Era 1958, a guerra fazia milhares de vítimas e, sob domínio francês, a Argélia não existia formalmente como nação – e, portanto, não podia ter uma seleção própria. O time foi formado principalmente por jogadores argelinos que jogavam na França. Era necessário muito comprometimento com a causa independentista, uma vez que eles precisariam fugir de volta à terra natal e ficariam marcados por essa atitude, tendo a sequência de suas carreiras ameaçada.

Mesmo assim, a convocação seduziu atletas importantes. Entre eles estavam Mustapha Zitouni e Rachid Mekloufi, respectivamente do Monaco e do Saint-Étienne, que jogavam pela seleção francesa e deixaram de lado a chance de disputar a Copa do Mundo de 1958. Mas também mobilizou jovens de carreira promissora, como Mohamed Maouche, talentoso atacante do Stade Reims, potência cinco vezes campeã nacional e vice-campeã europeia no ano seguinte. Maouche, porém, foi capturado quando tentava a fuga junto de outros dez jogadores e seguiu atuando em solo francês até 1961, quando voltou para a Argélia e defendeu o time de sua cidade natal.

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A equipe que ficou conhecida como Le Onze de l’indépendance ou seleção da FLN. Entre o fim da década de 1950 e começo dos anos 1960, esses jogadores conseguiram levar a mensagem de independência argelina pelo mundo. (crédito: WikiMedia Commons)

Como era de se imaginar, a França logo agiu junto à Fifa para colocar aquela representação na ilegalidade. Dessa forma, ela só pode disputar amistosos contra países norte-africanos ou ligados ao bloco comunista. Mesmo com essas limitações diplomáticas, Le Onze de l’indépendance disputaram mais de cem partidas em suas excursões pela África, Ásia e Leste Europeu. Dentro de campo, havia qualidade técnica suficiente para formar um esquadrão competitivo, que conseguiu goleadas sonoras, como as vitórias por 8 a 0 contra Tunísia e Marrocos e 5 a 1 diante da Iugoslávia em Belgrado.

Os resultados, por outro lado, tinham importância menor diante do papel principal daquela equipe: representar internacionalmente o país, espalhar a causa da independência e dar uma imagem tangível ao nacionalismo da população. Ela foi desfeita em 1962, quando, uma vez independente, a Argélia pode finalmente dar início à criação de sua seleção nacional.

Desconfiança e ressentimento

Um processo de colonização que durou mais de 130 anos e uma guerra brutal inevitavelmente deixariam marcas profundas na relação entre Argélia e França. Até hoje, o conflito é tema de debates e movimentos políticos dos dois países.

Apenas em 2018, 56 anos após a assinatura do Acordo de Evian, um chefe de Estado francês, no caso o presidente Emmanuel Macron, reconheceu, de maneira formal, a responsabilidade da nação europeia na violência da guerra. Porém, no ano passado, durante a campanha para a reeleição, ele sugeriu que a Argélia é comandada por um “sistema político-militar” que explora o passado e reescreve a história para espalhar um discurso de ódio contra a França. E foi além: questionou se realmente a Argélia existia antes da colonização francesa.

A afirmação foi considerada um movimento estratégico para se aproximar dos eleitores de direita em sua disputa contra Marine Le Pen. Em resposta, a Argélia chamou de volta seu embaixador, um exemplo de como as relações políticas entre os países passam por constantes aumentos de temperatura. Segundo o jornal “Le Monde Diplomatique”, eles vivem uma “longa história de desconfiança”, causada pelas discordâncias não resolvidas a respeito do passado.

Por outro lado, enquanto as acusações e retaliações ganham espaço na mídia, as relações militares e econômicas seguem firmes por trás das cortinas. A França é o segundo principal parceiro comercial da Argélia, ficando atrás apenas da China.

Sem uma nação para chamar de sua

Mas, para além da política internacional e da macroeconomia, existem as pessoas. São mais de 500 mil argelinos e milhões de descendentes de argelinos vivendo na França. Grandes fluxos de imigração são responsáveis por esses altos números, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, quando o país europeu precisou de mão de obra para se reconstruir (algo parecido com o que aconteceu com os turcos na Alemanha e o Futebocracia contou aqui).

Em seu dia a dia, esses cidadãos lidam com as consequências do passado mal resolvido. A maioria deles vive em Paris, Saint-Denis, Argenteuil e Montreuil, quase sempre nas periferias, em conjuntos habitacionais. Lidam diariamente com problemas como violência, desemprego e, para completar, o preconceito.

A presença dos imigrantes, entre os quais os argelinos são os mais numerosos, é constantemente alvo de ataques de políticos da extrema direita francesa. Segundo alguns, há inclusive um plano para “islamizar” a França, destruir sua cultura e substituir os franceses “tradicionais” pelos imigrantes. Em janeiro deste ano, Éric Zemmour, fundador e líder do partido Reconquête, foi condenado por discurso de ódio por ter dito que crianças imigrantes desacompanhadas são ladrões, assassinos e estupradores – um detalhe irônico: Zemmour é descendente de argelinos.

Marine Le Pen, filha de Jean-Marie, é a representante da plataforma anti-imigração mais forte eleitoralmente. Em 2017, ela perdeu a eleição presidencial para Emmanuel Macron no segundo turno por 66,1% a 33,9%. Cinco anos depois, nova derrota, mas por uma diferença bem menor, 58,54% a 41,46%, o que mostra como suas ideias reverberam na sociedade francesa atual.

Ataques terroristas perpetrados por muçulmanos radicais colaboram para dar mais poder a essa retórica nacionalista e conservadora. O massacre na sede do jornal Charlie Hebdo e as explosões no Teatro Bataclan, ambos em 2015, deixaram dezenas de mortos e aumentaram as tensões étnicas e religiosas na França.

Essa situação causa uma espécie de deslocamento dos argelinos e seus descendentes que vivem no país. Eles não se sentem franceses, não possuem identificação com o país. “Nos 14 anos em que estive aqui, nunca me senti realmente aceito, nem social nem profissionalmente”, contou um desses imigrantes ao jornal The New York Times. “Desde que cheguei, sempre fui chamado de ‘o imigrante’. Sempre fui definido pelo meu fluxo migratório, e nunca pelo que sou como pessoa”.

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No limbo: cidadãos franco-argelinos relatam dificuldade de se identificar com algum dos dois países (crédito: Amine M’siouri/Pexels)

Karim Beghache, que também falou ao jornal americano, definiu seu sentimento. “Nós sabemos o que não somos: franceses. Mas não sabemos o que somos. Aqui na França, o racismo contra os argelinos está em todo lugar. Por causa de um grupo de extremistas de cabeça fraca, nós todos somos estigmatizados”, relatou. “Imagine todas as pessoas brancas nos Estados Unidos sendo estigmatizadas porque a Ku Klux Klan existe”.

Outro descendente de argelinos, que compartilha com Beghache o nome Karim, também se sente dessa maneira. Só que suas atitudes ganharam holofotes ao redor do mundo porque seu protesto se dá em um momento notório: ele não canta a Marselhesa antes dos jogos da seleção francesa. Karim Benzema afirmou que não concorda com o trecho da letra que diz: “Às armas, cidadãos. Formai vossos batalhões. Marchemos, marchemos! Que um sangue impuro banhe o nosso solo”.

O atacante do Real Madrid não é o primeiro jogador francês a se recusar a entoar o hino. Michel Platini, Zidane e Franck Ribery também tinham essa postura, mas não chegaram a sofrer tanto questionamento quanto Benzema. Alguns políticos na França chegaram, inclusive, a defender que ele nunca mais fosse convocado. Isso quase aconteceu quando ele foi acusado de chantagear o ex-colega de seleção Mathieu Valbuena e ficou de fora da Eurocopa de 2016 e da Copa do Mundo de 2018. Alegando inocência desde então, ele considera que o técnico Didier Deschamps “sucumbiu à pressão de uma parte racista da França”.

Campeão, artilheiro e grande estrela da última Liga dos Campeões, com 15 gols marcados, Benzema voltou à seleção francesa para a disputa da Eurocopa de 2020 e estará novamente em campo na Copa do Mundo deste ano. Ele será um dos destaques de um grupo cheio de astros, muitos deles descendentes de pessoas que migraram das antigas colônias francesas.

Essa união de diversidade e talento foi exaltada na ocasião dos títulos mundiais de 1998 e 2018, quando ambas as gerações foram apelidadas de Black-blanc-beur (negra-branca-árabe). Elas seriam uma prova de que a integração de imigrantes e de diferentes culturas seria benéfica ao país. Por outro lado, o caso de Benzema mostra que a questão não é tão simples.

Turbulências na política e no futebol: a Argélia hoje

A conquista da independência não significou o fim da violência na Argélia. Desde 1962, sua história é marcada por golpes, atentados e guerra civil. Após a independência, a FLN, com orientação socialista e secular, emergiu como o único partido político. Somente em 1989 a Assembleia Nacional Popular (uma das casas legislativas do país) revogou o banimento a novas legendas, o que abriu espaço para a Frente Islâmica de Salvação (FIS), a mais importante organização islâmica do país.

A FIS rapidamente obteve apoio popular. Foi em seu apoio que os torcedores argelinos cantaram na conquista da Copa Africana de Nações de 1990, disputada no próprio país. Sob o comando de Rabah Madjer, Chérif Oudjani e Djamel Menad, as Raposas do Deserto venceram a Nigéria diante de mais de 100 mil pessoas no Stade du 5 Juillet. Oudjani acertou um belo chute de fora da área para marcar o gol que deu o título inédito à Argélia.

A FIS estava prestes a ganhar a eleição geral de 1991, mas as Forças Armadas obrigaram o então presidente Chadli Bendjedid a renunciar e em seu lugar colocaram um conselho de governo. Para completar, foi decretado estado de exceção e a FIS acabou dissolvida e considerada ilegal. As medidas causaram a revolta de grupos islâmicos mais radicais e deram origem à Guerra Civil da Argélia, um sangrento conflito que só terminou dez anos depois, com a vitória do governo sobre os rebeldes. Estima-se que entre 150 mil e 200 mil pessoas morreram em decorrência dos combates.

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Tanques invadem as ruas de Argel após o fim das eleições legislativas de 1991. Não aceitação do resultado por parte dos militares levou a uma guerra civil (crédito: Saber68/Wikimedia Commons)

Em 2019, Abdelaziz Bouteflika, um dos líderes da independência que governou a Argélia por 10 anos, renunciou em meio a protestos em massa. Em seu lugar assumiu Abdelmadjid Tebboune, próximo dos militares e aliado de Bouteflika.

Mesmo com todos os conflitos e disputas violentas, a Argélia ostenta alguns índices positivos, especialmente em comparação com outras nações africanas. Ela possui o maior PIB per capita e o quarto maior IDH do continente. A expectativa de vida é de 77 anos, praticamente a mesma do Brasil (76,8), e a taxa de alfabetização é de 81%.

No futebol, a Argélia se mantém como uma das potências da África. Com alguns de seus jogadores atuando em times grandes e médios da Europa, a seleção alviverde esteve presente nas edições de 2010 e 2014 da Copa do Mundo. Em 2019, conquistou seu segundo título continental. Com Ryad Mahrez, craque do Manchester City, a equipe venceu o Senegal de Sadio Mané na final realizada no Cairo, capital do Egito. Logo no segundo minuto de jogo, Baghdad Bounedjah fez jogada individual pelo lado esquerdo e finalizou; a bola desviou na defesa e encobriu o goleiro Alfred Gomis.

Entretanto, os últimos meses não têm sido tão positivos. Em março deste ano, a seleção argelina enfrentou Camarões na decisão por um lugar na Copa do Mundo do Catar. Com um time mais forte no papel, as Raposas venceram fora de casa por 1 a 0. Carimbar a vaga jogando diante de sua inflamada torcida não parecia missão das mais difíceis, mas começou a se complicar quando Choupo-Moting abriu o placar no primeiro tempo. O resultado levou a partida a uma dramática prorrogação. Depois de muito pressionar e exigir inúmeras defesas do goleiro André Onana, Toumba subiu para cabecear em cobrança de escanteio e deixou tudo igual.

O gol salvador deu aos argelinos o gosto de voltar à Copa do Mundo, mas esse sentimento durou poucos instantes. Aos 124 minutos, ou seja, nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação, Karl Toko Ekambi fez o gol que deu a vaga a Camarões. A derrota rendeu muitas reclamações por parte dos argelinos, com direito a pedido de anulação do jogo por parte da federação local. Segundo ela, a seleção argelina foi prejudicada em dois gols anulados.

A perda da vaga veio completar o inferno astral que já se estendia desde janeiro, quando a equipe decepcionou na Copa Africana de Nações. Detentora do título anterior e uma das favoritas, a Argélia somou um empate e duas derrotas na fase de grupos, ficando em último lugar na chave com Costa do Marfim, Guiné Equatorial e Serra Leoa.

Ainda que hoje imponha mais respeito, os resultados recentes mostram que a seleção argelina está longe do nível da francesa, atual campeã mundial e uma das favoritas para a próxima Copa do Mundo. Situação que espelha a diferença entre os dois países, diferença do tamanho de uma colonização de mais de 130 anos.

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