A geopolítica dentro de campo: o conflito que tirou Mkhitaryan da final da Liga Europa

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No dia 21 de maio, o Arsenal divulgou oficialmente o desfalque do meia Henrikh Mkhitaryan na final da Liga Europa, nesta quarta-feira (27), contra o Chelsea. O motivo não era uma escolha do treinador Unai Emery nem uma contusão ou problema físico do jogador, mas uma decisão pessoal ligada a uma disputa geopolítica. Foi quando a imprensa mundial, incluindo a brasileira, passou a falar de um assunto pouco abordado e quase desconhecido por quem não trabalha ou se interessa por relações internacionais: a disputa entre o Azerbaijão, cuja capital Baku sediará a decisão do torneio europeu, e a Armênia, terra natal de Mkhitaryan, por Nagorno-Karabakh.

Nagorno-Karabakh é um pequeno território de apenas 11 km quadrados e 158 mil habitantes (dado de 2013) que representa muito para os (também pouco extensos) países. Tanto que os primeiros conflitos datam do início do século XX, com intensas mudanças de controle nos tempos conturbados da Primeira Guerra Mundial. A situação arrefeceu quando Armênia e Azerbaijão passaram a fazer parte da União Soviética, com décadas de relativa paz na região. A partir do fim dos anos 1980, com a dissolução do bloco, os confrontos voltaram a acontecer.

O ponto mais trágico dessa história aconteceu em 1988. No mês de fevereiro, as autoridades regionais de Karabakh Montanhoso, como o local era conhecido, pediram às duas nações e à URSS uma decisão sobre seu futuro, pleiteando a sua autonomia e depois a reunificação com a Armênia, à qual pertencera no início do século. A esperança era conseguir uma solução pacífica, mas a resposta veio em forma de ataques e perseguições brutais por parte de turbas de azeris contra armênios na cidade de Sumgait, que fica ao norte de Baku. O chamado “pogrom de Sumgait” – pogrom, em russo, significa “causar estragos, destruir violentamente” – causou dezenas de mortes e aproximadamente 500 mil armênios deixaram o Azerbaijão. O governo local agiu com lentidão e pouca assertividade para reprimir os atos de violência.

Nagorno-Karabakh é ocupado por uma maioria de armênios. Por isso, não surpreende que um referendo feito no final de 1991 tenha apontado a vitória da opção pela independência e posterior união à Armênia. A parte estranha foi a magnitude dessa vitória: 99,98% da população teria feito essa escolha. O resultado não foi aceito pelo Azerbaijão e pela comunidade internacional, dando continuidade aos confrontos. Cerca de 15 mil pessoas morreram na guerra que aconteceu entre 1992 e 1994, até que os armênios, na época com maior poderio militar, obtiveram a vitória e o reconhecimento, por parte do governo azeri, da autonomia da região. Nasceu, assim, a República de Arstaque. Em seguida, com a mediação da Rússia, foi estabelecido um cessar-fogo não oficial entre as partes.

O problema, no entanto, ficou longe de ser resolvido. Houve violações regulares do acordo, deixando mais vítimas (entre 15 e 20 mil) e cerca de um milhão de refugiados. A população azeri deixou Nagorno-Karabakh e armênios saíram dos territórios azerbaijanos. Ao longo dos anos, criou-se uma rivalidade entre os povos. É preciso lembrar que, além de nacionalidades, armênios e azeris são duas etnias, o que fomentou rivalidades étnicas entre as populações dos dois países. Além disso, os primeiros são, em sua maioria, cristãos ortodoxos, enquanto os segundos são, em grande parte, muçulmanos. Há acusações de ambos os lados de incentivo a essa rivalidade por parte dos governos.

Diante desse cenário, era inevitável que a panela de pressão voltasse a explodir. Isso aconteceu em abril de 2016, na chamada Guerra dos Quatro Dias. Quarenta e sete soldados armênios perderam a vida, enquanto o número de baixas do lado azeri permanece desconhecido, uma vez que o governo não divulga essa informação. Como o território de Nagorno-Karabakh fica dentro do Azerbaijão e próximo à fronteira com a Armênia, a população residente nos arredores sofre constantemente com a necessidade de deixar suas casas, drama relatado em excelente matéria do jornalista José Fialho Gouveia para o site português Diário de Notícias.

A esperança de uma solução pacífica para a crise apareceu no horizonte em 2018, quando Nikol Pashinyan assumiu como primeiro-ministro da Armênia com um discurso mais moderado. Ele propôs negociações por meio do Grupo de Minsk, criado em 1992 pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) para tentar resolver o conflito pelo diálogo. Um clima de otimismo surgiu nos países europeus por conta de declarações das principais autoridades envolvidas. Em dezembro, o presidente azeri Ilham Aliyev afirmou, por meio de seu perfil no Twitter, que o ano de 2019 traria um “novo ímpeto para o ajuste do conflito”. Pashinyan, por sua vez, disse que essa era uma de suas prioridades.

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Ilham Aliyev, presidente do Azerbaijão, e Nikol Pashinyan, primeiro-ministro da Armênia, prometem novos rumos na história entre os dois países. (créditos: WikiMedia Commons)

Não há razão para um excesso de otimismo, entretanto. Um final feliz ainda parece algo inalcançável a curto prazo, especialmente por conta da rivalidade entre azeris e armênios, muito presente em ambas as sociedades. Como analisou o especialista Laurence Broers, se os governos realmente querem a paz, precisam primeiro restaurar a atividades entre os dois povos. Até por esse clima, além das dificuldades legais – como a obtenção de passaporte sendo que os países não possuem relações diplomáticas, Mkhitaryan não se sentiu seguro para viajar a Baku e disputar a final da Liga Europa. As garantias de segurança feitas por parte do governo e da associação de futebol do Azerbaijão tampouco convenceram o jogador.

A decisão foi criticada pela imprensa azerbaijana. Segundo o site Zerkalo, o jogador “preferiu ser refém dos próprios medos” e “confundiu o campo de futebol com o mundo político”. Porém, deixar de exercer sua profissão por conta dessa questão geopolítica não é uma novidade para Mkhitaryan. Em 2015, quando defendia o Borussia Dortmund, o meia se recusou a viajar para a partida contra o Qabala. Agora, apesar de ter perdido a titularidade ao longo da fase eliminatória da Liga Europa, o armênio fica fora de uma final continental e deixa Unai Emery com uma opção a menos no banco de reservas. Se é possível ver um lado positivo nessa história, agora mais pessoas conhecem a triste história de Nagorno-Karabakh e, quem sabe, com maior atenção ao conflito as partes envolvidas se sintam pressionadas a encontrar uma solução pacífica.

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